Tocando em frente

“Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs”. Quando ouço ou penso nesses inspirados versos da música brasileira, eu sempre imagino o Almir Sater num rodízio de comida italiana, que é uma boa ocasião para se conhecer o sabor das massas. Com a viola ao lado, ele pede ao garçom: “Deixa eu experimentar esse canelone aí”.

Eu não sou propriamente uma pessoa apurada em termos de poesia. Digo poesia, e não poema, pois não estou me referindo à arte dos poetas (que tampouco julgo conhecer, embora seja leitor da modalidade). Eu falo em poesia no sentido mais amplo, daquele raio capaz de atravessar as coisas da vida e atribuir-lhes uma beleza singular – inclusive nos poemas.

A verdade é que o mundo embrutece a gente. Isto aqui era para ser um lugar de gozo, ainda mais agora que a humanidade já superou a fase das vacas magras. Sem precisar derrubar mais nenhuma árvore, a gente já daria conta de alimentar cada pessoa e cada bicho. Não nos faltam recursos, e não há vida que dure a tempo de conhecer todos os bons lugares da Terra.

Não bastassem esses pré-requisitos para uma digna existência, temos a poesia para encantar as coisas. Com olhos impregnados dela, vemos mais do que uma praia (ah, uma praia): vemos sua beleza e, nela, sua alma. Como a paisagem, vamos além do que somos, transcendemos.

Mas não. Os séculos continuam engolindo as transcendências. Ultimamente, têm engolido a própria Terra, num avassalador assalto a essa rede de redes que é a internet, ou melhor, a natureza, a serviço de lucros de curtíssimo prazo, que por isso mesmo são insaciáveis. Esse assédio sanguinário às bases da vida inclui a caça aos povos originários (como os indígenas), que sabem manter com a Terra um pacto de cooperação mútua, capaz de render vida em abundância a todos. A civilização desencanta a Terra, que um dia consideramos Mãe.

Limitados à luta pela sobrevivência, os desprovidos se apegam à maior das poesias, o grande Mistério por trás e por dentro de tudo – Deus. A vida, porém, é uma pedra bruta que a maioria não vai lapidar. Mas não são só os pobres os que vivem distantes da poesia das horas, das receitas sem pressa, dos pores-do-sol. Nós, os vacinados e os remediados, também vamos embrutecidos. As crianças que somos apanham em todas as frentes. Não há um dia em que não nos cobram pragmatismo, quando o nosso desejo é pelo infinito.

Também a pandemia nos põe contra a parede, literalmente. Eu vou te contar, não sei como estou suportando o cárcere. Aí eu penso em quem precisa sair para trabalhar, ou em quem não tem trabalho, ou nos cachorros confinados no cimento de um quintal vizinho, ou na gravidade dessa doença, ou no esgotamento das enfermeiras, e procuro sossegar o facho.

Mas penso que só mesmo a poesia pode trazer o verdadeiro remanso. Em quarentena ou não, eu só consigo ir tocando em frente graças a alguma resiliência, algumas pessoas e ao menos alguma poesia. Aliás, é incrível que a humanidade tenha sido capaz de criar coisas como os Beatles e o Mario Quintana, provas de que não somos um projeto falido.

Dito isso, não vejo a hora de poder sair de casa e, como o Almir Sater, experimentar o verdadeiro sabor das massas, já que eu não conheço as manhas para fazer lasanhas…

Desencontro

Júlio já havia passado pela catraca, descido a escada rolante e caminhado ao menos quarenta passos pela plataforma. Por que ainda trazia entre os dedos o velho cartão do Bilhete Único? Foi o que se perguntou ao despertar da própria mente, quando o ruído dos trilhos do metrô anunciava o trem que chegava. Mas ele sabia o motivo de cada distração sua naquela noite. Exausto de excitação, resolveu repousar num banco de madeira sob uma propaganda de telefonia móvel, à espera de outra composição como a que já se esticava diante dos seus olhos.

Taís se sentou no mesmo banco da estação. Sobre ela, porém, a publicidade não tratava de um plano de internet, mas de saúde. Alheia àquelas recomendações para o futuro, ela também assistiu à passagem do primeiro trem. Deixou ir o segundo, e o terceiro. No fechar das portas do quarto trem, Taís já retomava algum controle sobre os olhos, que andavam perdidos minutos antes. Ao lado, Júlio olhava o relógio sem perceber as horas. O quinto carro era talvez o sexto…

Sentados num ponto discreto da plataforma, Taís e Júlio observavam aquelas pessoas que entravam e saíam dos vagões. Como os trens que passavam, os passageiros eram todos iguais.

Uma carga de eletricidade estática unia o Bilhete Único a um recibo de compra a crédito. Mecanicamente, Júlio conferiu o valor e dobrou o papel. Até o teria guardado num dos bolsos da carteira, não tivesse se rendido novamente àquele pensamento. A incrível propulsão desse fenômeno o fez atravessar as camadas de terra e emergir numa esquina da Rua Haddock Lobo, cenário da história que se repetia na lembrança. Enquanto a cena se projetava – agora com novos aperfeiçoamentos –, Júlio involuntariamente meteu o recibo amarelo num mínimo vão entre o metal e a madeira embaixo do banco. Ao retornar dezenas de metros sob a rua, o rapaz não compreendeu o desaparecimento do papel, que examinara havia poucos segundos. Procurou no chão, varrendo-o com os sapatos novos; conferiu os bolsos da camisa branca e da calça. Nada. Ali estava ele, a olhar um cartão frio e duas mãos de comprovados poderes mágicos. Um papel havia sumido como cada um dos problemas que ele tinha até aquela noite gloriosa.

No seu canto do banco, Taís era desilusão. Pelas janelas dos trens que chegavam, ela via a si mesma trabalhando num escritório cinicamente iluminado. Em cada carro que partia, via as lâmpadas se apagarem e a sala desaparecer. Ela havia perdido o emprego. Lembrou-se de que ainda tinha plano de saúde por mais três meses, o que não trouxe conforto ao seu assento. Inconscientemente, percorreu as mãos pelo corpo jovem, como o tímido começo de um abraço que ela pedia a si mesma. No despertar daquele instante embaraçoso, uma das mãos escorregou para o banco gelado. Ao tatear a parte inferior, tocou um pedaço de papel enterrado num vão entre a madeira e o metal. O papel dobrado não era amarelo nem tinha preço: estava em branco.

Taís gostaria de ler qualquer coisa naquele papel improvável. Mas não havia palavras, nada. Ela observou cada dobra, com a atenção de quem vê as próprias rugas no espelho. Sem dúvida, tratava-se de um comprovante de pagamento, cuja natureza, ao seu lado, Júlio teria lhe explicado facilmente. Nas mãos de Taís, porém, não havia explicações. A jovem tinha entre os dedos o mistério. Imaginou o que havia sido comprado naquela antiga transação. Viu, então, um café e um livro, presentes que decidiu ganhar naquela noite. Lá estava ela, com um papel e duas mãos mágicas. O décimo trem já lhe soava uma boa companhia para enfrentar o túnel. Partiu.

Júlio viu o décimo carro desaparecer, como Taís viu a luz da estação se apagar de dentro da composição. O rapaz estava feliz com o negócio que havia fechado numa mesa da Haddock Lobo. Levantou-se e partiu no décimo primeiro trem, num silêncio saciado. Restou-nos, pois, a estação. Nela, um banco de madeira. Nele, a ausência de um papel que havia repousado ali por onze anos, não se sabe como – o tempo define os termos e as condições do serviço de guarda.

Dois dias depois da partida de Taís, Júlio desembarcou pela primeira vez na estação desde o desaparecimento do recibo, onze anos antes. Súbito, recordou a cena e percebeu o tal banco, que contava seus trens em silêncio. Num rompante de credulidade, tão estranho ao seu atual estilo, sentou-se no banco ante a mística perspectiva de recuperar o papel, comprovante de um pagamento que ele agora ignorava. Diante do silêncio de todas as vozes sobrenaturais daquelas cavernas, percorreu a mão sob o banco, até concluir que nada havia além de chicletes mascados em dias mais doces. Riu da própria ilusão, mas perdeu de vez a fé no milagre das mãos e da vida.

Júlio subiu as escadas rolantes pensando que seria impossível um pedaço de papel se preservar por tanto tempo; teria se dissolvido na química do perpétuo respirar de quem tinha a estação como passagem, nunca como parada. Ele não sabia que, dois dias antes, uma moça havia retomado o milagre que ele começara naquela noite. Exausto de angústia, o homem passou pela catraca e foi tentar recuperar um negócio em crise, com apenas duas mãos e unhas por cortar…

Mal traçadas

Eu adoro mapa – a representação visual de um espaço –, mas tenho pouca afinidade com a geometria – a medição desse espaço. Gostaria de ter aprendido geometria com mapas das ruas de São Paulo, que sempre me fascinaram. Talvez assim eu teria curtido mais a matéria, e o mundo teria hoje mais um engenheiro para construí-lo…

Em termos geométricos, São Paulo é berço e cemitério de polígonos. Eu não sou engenheiro nem nada, mas, nossa Senhora, esse planejamento urbano da Capital eu também saberia fazer! Mais de uma vez já fui vítima da barbeiragem de quem traçou certas ruas paulistanas, como se as minhas barbeiragens já não fossem suficientes.

Não sei os senhores, mas eu cheguei a dirigir em São Paulo antes da era do GPS (o que também não faz tanto tempo assim, nem dez anos atrás). Naquela época, passava-se mais vergonha como motorista. Uma vez em que fiz clamoroso papelão foi quando, partindo da casa de um amigo no Cambuci, errei a saída e desemboquei na Radial Leste, em horário de pico.

Depois de certo desespero, finalmente achei o retorno. Assim, bastava continuar na avenida: eu logo teria reconhecido o Minhocão e praticamente estaria em casa. Mas, por algum motivo que ainda ignoro, peguei uma alça e fui parar na Aclimação.

Eta bairro de mal traçadas linhas! Eu ia pelo senso de direção, mas as ruas faziam curvas suaves que arruinavam qualquer navegação. Fiquei perdido umas duas horas, depois de ter dito à passageira coisas como “o segredo para se dirigir em São Paulo é conhecer os seus grandes corredores”. O professor só não sabia chegar a eles…

Tempos depois, eu ia pela Marginal Tietê querendo acessar a Avenida Cruzeiro do Sul, mas uma confusão de carros, saídas e placas atrapalhou este já confuso condutor, que passou do ponto. Falei para a minha mãe: “Não se preocupe, é só entrar na rua da Portuguesa, virar à direita e cair de boca na Cruzeiro”. A rua da Portuguesa só virava à esquerda, irmãos.

Mas foi assim que minha mãe e eu finalmente descobrimos o bairro do Pari, que ela estava mesmo querendo visitar para comprar artigos domésticos. Isso, porém, seria em outra ocasião. Naquele dia, nós apenas ficamos perdidos mesmo. Do Pari, nós caímos no Brás, onde eu achei até o samba do Arnesto, menos a saída.

Voltamos ao Pari algumas vezes depois disso, sendo a última há pouco mais de um ano, para procurar enfeites e presentes de Natal (lembrancinhas, para ser sincero). Eu queria comprar um pisca-pisca em formato de estrela para pendurar na minha varanda. Penso que qualquer decoração natalina é um sinal de resistência, como quem diz: “Nesta casa, nós apoiamos a luz”.

A questão deste apartamento é que não há meio de pôr a estrela de frente para a cidade (a não ser que eu a prenda no parapeito e fique sem poder admirar as suas luzes vermelhas). Pendurado lateralmente o enfeite, apenas eu, os moradores do prédio vizinho e os clientes do mercado da esquina podemos vê-lo brilhar – o que não é pouco.

Imagino um menino triste no estacionamento do mercado que, ao notar a estrela, dissesse: “Olha que bonito!”. Talvez o meu pequeno polígono, no décimo andar de um prédio vulgar, siga brilhando nos olhos dele como um exemplo de coragem, de modo que ele nunca fique tão perdido, mesmo se for dirigir às escuras na noite de São Paulo. Mesmo que esse menino seja eu.

Em tempo: não se constrói o mundo só com concreto, mas também com luz, sonho e poesia.

Dicas para a vida sexual (e, vá lá, financeira) no novo normal

Lionel_Mé, de Bauru, escreve: “Caro Mateus, tenho 35 anos, sou comerciante e, graças a Deus, solteiro. Há mais de oito meses, mudei drasticamente o visual, tendo extraído a minha atávica barba, que ia mais grisalha do que o recomendado. A partir daí, coincidência ou não, as vendas da loja, como os pelos da cara, caíram vertiginosamente, e a minha vida sexual sofreu enorme queda. No início, até a prefeitura apareceu para me proibir de trabalhar por uns dias. No fim, a contabilidade nunca mais foi a mesma na loja nem nas baladas onde atuo. Gostaria de saber se devo retomar a velha barba, e peço dicas para reavivar minha vida sexual e, se der, financeira”.

Ó Lionel, convenhamos, as coincidências desta vida tornam arriscado um diagnóstico definitivo quanto aos possíveis efeitos de um barbear completo nos seus, digamos, investimentos. Claro que você não pode descartar a possibilidade de o novo visual não ter agradado, tendo em vista que o aspecto de lenhador – barba fina e músculos grossos – é uma alternativa cada vez mais estabelecida no gosto popular. Nesse quesito, a moda da máscara pode minimizar as eventuais perdas, como um fator de distração e mesmo de disfarce para as bochechas lisas, sem contar os prováveis benefícios para a sua saúde, que a mídia tem ampla e incansavelmente divulgado. Portanto, use e abuse da máscara como uma forma de preservar a vida e o chamado mistério, ingredientes recomendáveis a todo romance. Cultivar nova barba é opção, mas não obrigação.

Por outro lado, essa impressão de que as pessoas estão menos nas ruas não é apenas sua. Há muitos relatos de que estamos vivendo um período de distanciamento e até isolamento social. Apesar dos notórios problemas que isso acarreta, afetando bolsos e boates, a crise pode trazer benefícios inesperados, como uma maior profissionalização da gestão de negócios e relações. Especificamente no aspecto amoroso, eu diria para você não desprezar a possibilidade de criar um vínculo mais duradouro, o que pode render não só uma parceira sexual estável, mas uma companheira para a vida. Administrar as diferenças e reconhecer os seus próprios limites – eis alguns segredos para manter em pé sua loja e seu futuro enlace, num cenário que deve piorar.

Por fim, nem preciso falar no tocante à masturbação, recurso a que certamente o senhor tem recorrido nestes tempos extremos. Eu quero me referir a outro ato que a pessoa pode praticar consigo mesma, que é o autoconhecimento. A inusitada solidão é uma boa oportunidade para que a gente se ouça com maior profundidade, de forma a melhor desvendar o que somos e o que queremos. Manter ou não uma barba pode, sim, ser uma questão de preferência sua, mais do que do público consumidor. E a máscara que está na moda é a de tecido, e não aquela que esconde a nossa verdadeira personalidade. Não vou negar, meu caro, que isso pode afastar as mulheres no início. Mas foque na porta que vai se abrir para que venha a mulher certa – uma que o ame a ponto de investir no combalido caixa da sua empresa. Um abraço ao Mé, e até.

Cartas marcadas

Há alguns anos, eu visitei o Museu Catavento, em São Paulo, dedicado às ciências naturais. Depois de passar por uma grande sala com exposição de bichos (dos quais, salvo engano, só estavam vivos alguns peixes e outros animais úmidos), acabei num pátio com um viveiro de borboletas. Era verão, e havia uma placa na gaiola dizendo que o período de chuvas causava a morte de muitas borboletas, o que – obviamente – explicava a dificuldade em percebê-las ali.

Pensei que aquilo era um contrassenso, porque a gente sabe que a chuva é uma bênção dos céus em benefício da vida na Terra. Contudo, pensei melhor e concluí que, pois é, é fácil falar quando não se é borboleta. Vá você enfrentar um temporal com aquele corpinho epidérmico. Com este meu baita corpo (que também não é nenhuma escultura grega), eu já fujo de chuva.

Diz que os egípcios inventaram o papiro há aproximadamente três mil anos. Arrisco dizer que a inspiração para essa descoberta foi a borboleta, o mais sublime dos papéis. Em suas asas, Deus imprimiu um reflexo do Seu próprio esplendor, que não caberia em criatura menos delicada. A Amazônia tem bandos de borboletas – as panapanás – que enchem a floresta de cor e alegria.

Mas ver Deus numa borboleta é fácil. E não foi outro o Criador da aranha, com a qual eu tenho frias relações diplomáticas. Carrancuda sentinela das sombras, uma aranha não traz nenhuma alegria a uma floresta, muito menos a uma casa. Mas é comovente a sua presença, convicta do seu direito de existir, apesar do nosso desprezo e das investidas de sapos, gatos e passarinhos.

Quando eu me mudei para este apartamento, logo percebi uma aranha que habitava o vão do batente da porta do banheiro. Sendo ela uma aranha miúda mas de aspecto pouco amigável, pensei que seria prudente enviá-la para a eternidade com uma das minhas havaianas. Porém, tive pena daquele bicho solitário, que havia chegado antes de mim ao imóvel. Dei-lhe uns dias de lambuja para avaliar o seu comportamento. Resultado: a aranha recebeu o nome de Juliana e foi tratada como moradora. Cansou de me ver pelado naquele banheiro, o que não diminuiu sua notória timidez. Aqui permaneceu por um ano, até que parei de surpreendê-la na parede. Retirou-se da vida como a viveu – discretamente. Só corria para se esconder. Nada mais frágil.

Outro dia, chovia nestas janelas, e lá fui eu apoiar a testa no vidro para olhar o espetáculo das águas sobre a cidade. Mas o primeiro plano me surpreendeu com cena dramática: uma aranha encurralada entre a janela e uma goteira, que espirrava para todos os lados e escorria para o precipício. Eram apenas respingos, mas a aranha enrijecia o seu corpo a cada espirrada. Fiquei envolvido em sua luta silenciosa contra a morte anônima a mais de 30 metros de altura. O que me causava mais impressão era a sua evidente fragilidade, que sua aparência queria disfarçar.

No momento em que escrevo, um homem surge no topo de um prédio a duas quadras daqui. Contra o imenso céu azul desta tarde, ele não é mais do que um inseto (com a ressalva de ter nas mãos um celular, no qual registra fotos da vista). Isolado do mundo dos homens, o sujeito não se faz de gavião: o seu passo hesitante no céu escancara o medo que ele tenta esconder na calçada. Seja com figurino de borboleta ou de aranha, os homens somos todos vulneráveis.

Uma receita de sucesso

Novembro teve uns dias de chuva que esfriaram este apartamento. Frio esse que me convidou a fazer uma sopa. Sopa essa cuja receita eu tenho o prazer de compartilhar com a leitora. É um verdadeiro deleite (ou seria alívio?) tratar de algo tão leve e saboroso neste ano escabroso…

Comecemos só com uma rápida contextualização – um pouco de cultura não há de fazer mal à crônica nem ao leitor. Fazer uma sopa é mais do que preparar uma refeição: é provar-se digno da espécie humana. Afinal, há evidências de que a nossa evolução passou pelo ato de cozinhar.

Estudos indicam que o cérebro dos nossos ancestrais só pôde crescer de tamanho a partir da redução do estômago – uma contrapartida. A perda na capacidade digestiva foi compensada pelo fogo, que “quebra” as proteínas animais e outros nutrientes antes que passem pela boca. Ossos queimados são indícios de que o homem cozinha a própria comida há pelo menos um milhão e meio de anos. Do espeto para o caldo, base nutricional das civilizações, foi um pulo…

Mas vamos voltar à nossa receita suave para uma sopa leve. Aí vai o passo a passo. A primeira coisa a fazer, minha amiga, é reunir os ingredientes… Mas a louça não deixa espaço nesta pia. Assim não há condições de uma pessoa cozinhar uma sopa ou o que for. O preparo já começou bastante tarde, por ser domingo, e esta inesperada louça vai atrasar ainda mais o expediente…

Mas não vamos nos irritar neste relato sereno: lavemos a tal louça. DUAS HORAS DEPOIS, nós já podemos levantar os ingredientes: umas seis batatas, três cenouras, três mandioquinhas, uma cebola, um dente de alho, meia xícara desse macarrão vulgo cabelo de anjo, um pouco de sal e bastante salsinha. Pois bem, descasque o que tem casca, pique o que está grosso, e aí reserve.

Meu Deus, esqueci o frango! Era para tê-lo temperado antes de começar a aula. Fatie meio peito em bifes, para temperar, e só depois corte em pedaços menores. O quê, minha senhora? Quer saber com o que eu tempero frango? Ora, com sal e alho. Não, não vou raspar nenhuma noz-moscada, pois o tempo nos escapa. No máximo, um azeite e um orégano. Deixe curtindo.

Ponha para ferver uma caneca de água. Olha, não vai dar tempo de o frango curtir o tempero, vamos adiantar o processo aqui. Pode pôr o óleo na panela de pressão, ó. Refogue a cebola e o alho, assim, está vendo? Põe o frango para fritar. O cheiro está ótimo! Mas como demora para fritar, não? Se o senhor está com a fome que eu sinto agora, recomendo pegar uma banana…

CRISTO! Foi só comer uma banana, e o que era frango cru já pretejou. Mas acho que ainda dá para consumir. Depressa, vamos despejar os demais ingredientes. Põe um pouco de sal nesses legumes e mexe bem. Agora é só pôr a água fervente. Hein, dona? Eu esqueci de acender qual fogo? Realmente, esqueci de acender o fogo da caneca. DANE-SE, vai com água fria mesmo… E já vai se acumulando nova montanha de louça. Incrível, não me lembro de ter sujado tudo isso.

Feche a panela. Assim que ela começar a apitar – coisa que vai demorar, já que a PORCARIA da água está fria –, conte 20 minutos. O apito começa MESES DEPOIS. Após INSUPORTÁVEIS 20 minutos, a senhora pode tirar a pressão. Acrescente o anjo e deixe mais cinco minutos no fogo do INFERNO… O quê? O macarrão já foi junto com os legumes? De fato… Eu só não sei o que o DESGRAÇADO está fazendo na panela! Depois de tanto tempo na pressão, deve ter derretido!

Às seis e meia da noite, enfim, nosso almoço está servido, para a glória dos nossos ancestrais.

O argentino e a alemã

Vou lhes contar uma história que, por constrangedora, eu não contaria nem ao meu melhor amigo, imaginem a vocês, de quem quero distância (pelo menos nesta época de pandemia). Agradeçam a concessão à graça divina e à quarentena, que me faz falar mais do que deveria.

Nos idos de 2018, eu fiz a minha primeira viagem de lazer sozinho. A tarifa promocional me ofereceu Salvador, e lá fui eu realizar um velho desejo de conhecer a chamada “Roma negra”.

E lá chegando, fui tomar um cafezinho e encontrei um boiadeiro, com quem fui falar. Desses versos de “Faroeste Caboclo”, troque “boiadeiro” por “baianeiro” – no caso, o sr. Nilton, dono da pousada. Sim, além de baiano, era um apaixonado pela Bahia, contador de muitas histórias da história de lá. Ele me serviu um café que nem estava incluído na diária, um “gentlepainho”.

Seguindo as suas dicas de habitante e grande conhecedor do belo centro histórico de Salvador, caminhei do Convento do Carmo até o Largo Terreiro de Jesus – em reforma, ao contrário das suas lindas igrejas, já restauradas –, passando pelo Pelourinho. Baixei o santo pelo Elevador Lacerda e dei uma volta na Cidade Baixa (incluindo o Mercado Modelo e a belíssima basílica). Conheci muitos dos lugares sugeridos, e reservei o dia seguinte para a visita às duas igrejas dos franciscanos. Foi lá que Nosso Senhor Jesus Cristo da Bahia começou a rir deste turista caipira.

(Caipira, mas o pessoal achava que eu era argentino, talvez pelos mullets ou pelo chapéu, bem à lá gringo. Era passar em frente a um restaurante que logo vinha o garçom: “Mirá el menú”.)

Enquanto eu admirava os azulejos portugueses do Convento de São Francisco (famosos pela beleza e por retratarem a Lisboa de antes do terremoto de 1755, que a destruiu), eis que passa uma moça mais bonita do que qualquer azulejaria, mui alta e branca. “É alemã”, pensei. Tendo ela parado próxima aos meus azulejos, arrisquei um “oi” e ela devolveu “oi” num sotaque que ainda me deixou na dúvida sobre a sua origem (italiana?). Era o início do meu carma baiano…

Pois, até sem querer, eu comecei a encontrar essa menina nos demais espaços do Convento. Dei com ela na bela e luxuosa nave da igreja, e nas salas de trás, que têm exposições. Depois, encontramo-nos também na igreja vizinha, da Ordem Terceira dos franciscanos (cuja fachada, toda em relevo, remeteu-me às igrejas do Peru, que só conheço de foto). Cruzei com a moça na parte superior – outro museu – e inferior, onde há um ossário em que jazem os restos de gente que já teve alguma importância. Eu olhava tudo com cara de interesse, mas o interesse mesmo era na única mulher viva do recinto. O silêncio mortal da sala ficou ainda maior com a gente lá. Quase perguntei se ela falava Português, mas engoli por lembrar que meu Inglês era influente, no sentido de não ter fluência. Enfim, ficaria travado se a distinta fosse estrangeira.

Horas depois, ela passa novamente por mim no Largo e, opa, o cumprimento já tem um sorriso de cumplicidade. Então, ela sumiu, e confesso que eu fiquei um pouco frustrado por não tê-la abordado. Paciência, não era a primeira vez na vida. No fim da tarde, haveria a famosa missa dos pretos, na igreja do Pelourinho. Cheguei lá, e não me surpreendi ao notar a tal loira bancos à frente. Só que, no fim, a muvuca foi tão grande que eu a perdi no meio de baianos e turistas.

“Desta vez, para sempre”, lamentei. Mas já dizia Renato Russo: “o pra sempre sempre acaba”.

Gente, eu juro por Deus – que agia para dar um “Bonfim” à história. Comprei uma excursão e viajei uns 100 km até a falada Praia do Forte. Estou eu ali, diante de um tanque de tubarões, quando reparo numa pessoa à minha frente. “Não pode ser”, penso eu. Podia, e era. Encontrei a moça num lugar bem apropriado para este sujeito devagar e sem iniciativa: a base do Projeto Tamar. Aí eu não podia mais me omitir. Esperei que ela se virasse e perguntei: “Por acaso, você está me perseguindo?”. Ela riu e brincou – em puríssimo Português – que eu é que a perseguia. Disse que era de Curitiba (daí a aparência europeia) e para lá voltaria no dia seguinte. Como eu já estava na chuva, convidei-a para jantar em algum lugar de Salvador. Mas ela falou que não sairia naquela noite. Murcho pela negativa, nem lembrei de pedir o telefone. Despedimo-nos.

Mas não acabou, senhores. Uma ou duas horas depois, eu estava na última parada do passeio, a praia de Guarajuba. Saí para caminhar com um casal que havia almoçado comigo, e quem eu vejo? Sim, a minha alemã de Curitiba. Lá foi este argentino conversar com ela sobre viagens, e sobre viajar sozinho (mesmo quando Deus insiste em me oferecer uma companhia, pensei). Eu confesso que gostei dela. De modo que o desfecho da história – de desencontro – não foi fácil.

Com meu ônibus já ligado para voltar a Salvador, eu queria o contato da moça, mas não tinha certeza de que ela gostaria de me informar. A alternativa foi sugerir que ela procurasse o meu perfil no Facebook: Mateus do Amaral, com a foto do Ciro Gomes (“só até as eleições”). Outra despedida. Até hoje, não fui encontrado. Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, né, Renato?

O milagre é a vida

Viajante adormecido, cheguei a este reino sem ver suas famosas bordas, os célebres bosques que envolvem suas muralhas. Há três horas que desembarquei nesta casa, mas a carruagem que me trouxe ainda me bate nas nádegas, como punição ao imperdoável cochilo. Os pobres cavalos certamente estão recolhidos ao estábulo, dormindo em pé o seu merecido descanso.

Acomodaram-me no alto da torre, e esta janela é mais uma anfitriã a me oferecer um agrado: ela me dá boa parte do reino – um último sabor antes da madrugada. Vejo o mercado central e, na sua porta derradeira, um último cliente. Um cumprimento com mesuras parece encerrar uma negociação a um preço generoso. O homem parte com uma melancia. Assim se encerram as banalidades de um dia: quando um homem retorna à casa com uma enorme melancia para os filhos. Metros acima, a noite também é extraordinária para um forasteiro recém-chegado. 

No caminho que leva até o portão principal do reino (por onde, suponho, entrei), dois guardas cavalgam com grande desinteresse, como a manejar cada pata dos cavalos para desviá-las das plantas que se agarram às pedras do calçamento. Devem estar indo render outros dois jovens, substituir na guarnição aqueles que vão gozar a noite no calor de casa. Uma brisa fresca traz uma caneca com água dos riachos do reino a este bruto, tão habituado à aridez de outros ares.

Este lugar tem torres de todos os lados. Na multiplicidade de estilos arquitetônicos, reina uma harmonia improvável, e cada torre reverencia a beleza das outras com o piscar das janelas. Em quase todas as construções que vejo, há pelo menos uma janela alegre, iluminada. Inventa-se uma refeição a esta hora da noite. Inventam-se histórias, alguns biscoitos e um copo de leite.

Eu posso ouvir o riso de duas crianças – dois irmãos – numa das muitas casas térreas que nos rodeiam. De trás delas, dos quintais, vem o cheiro de uma macieira da minha infância. Alguém vence a escuridão de um quintal com uma lamparina. Penso que é uma senhora à cata de uma erva. A lua míngua sobre a cidade, e faz-lhe delicada infusão de luz. De novo, ouço as crianças que não vejo. Somos eu e você, irmão querido (aqueles que cresceram mais do que deveriam).

Iluminado por fogo denso e vivo, surge o edifício do castelo. As duas torres ficam à esquerda da construção principal – eu me pergunto por que não ergueram uma à direita, mas nada sei de estratégia, nem mesmo sei se precisam dela neste reino. Suas torres nem de longe estão entre as maiores, mas o castelo é orgulhoso de ter seu próprio muro, embora o portão esteja escancarado. Não há janelas luzidias; devem estar dormindo por lá. Mas os ciprestes dançam.

Lá atrás, posso ver as verdadeiras muralhas, que envolvem toda a cidade. Para dentro delas, uma comunidade mantém a vigília: uns em oração; outros numa noite de amor; outros, ainda, como eu, apreciando a brisa, a lua minguante e a cidade, com seus cachorros a dormir naquele jardim. Como sempre distraído, quase não reparo na bela floresta que circunda esses muros.

Tal distração, no entanto, me surpreende: aquela floresta realmente brilha! Não se trata de tocha, lamparina nem luar: as copas das árvores reluzem como pontos de fogo sobre o reino! Eis aí seus famosos bosques, como procissão que chegou à parada final de uma celebração e ouve, consolada, as palavras do sacerdote. Que bichos viverão naquelas sombras iluminadas? Que fantástica e misteriosa opulência! São velas de um pavio eterno, como as velas de Deus.

A essa altura, a janela me pede licença para cerrar-se. Mas a noite ainda me acompanha. Vou descer novamente à área comum, onde há poucas horas fiz uma calorosa refeição, cercado de sorrisos. Vou ver se encontro alguém para um abraço de boa noite, e ver se acho uns biscoitos.

O pior cego

Há coisas interessantes no céu noturno que a gente só não vê porque não quer. Por exemplo, eu já vi umas três vezes a passagem de satélites no céu a olho nu. Devo ter perdido milhares de aparições de satélites nesta vida apenas porque não observei. Eu sei que estou conectado a eles de outra forma, entretido numa conversa de zap ou pagando contas pela internet. Mas, convenhamos, é bem mais fascinante ver um satélite no céu (e eu nem estou falando da lua…).

O leitor pode me perguntar qual a utilidade de se ver uma parafernália enferrujada boiando na atmosfera da Terra. De fato, nenhuma – se você achar que o espanto não nos serve para nada. Eu penso que é pelos espantos que nós vivemos, sempre à espera do arrebatamento do amor, de uma comunicação interplanetária, de alguma emoção… E um satélite que atravessa a noite, silencioso e resoluto, não deixa de nos remeter ao Mistério. O incrível pôr do sol de Bauru, que eu admiro melhor deste prédio, não me acrescenta nada, exceto o desejo de que eu viva para ver muitos entardeceres. A música não tem utilidade, mas poucas coisas são mais espantosas.

Quem vive em prédio não tem apenas a vantagem de ver melhor o céu, mas também a terra. Ficar acima dos passarinhos nos dá alguma dimensão da perspectiva desses sagazes coletores. Com eles se aprende que um amplo campo de visão e alguma paciência só trazem benefícios. A internet seria menos selvagem se nela atuássemos como pardais, com baixadas planejadas e serenas. Eles escolhem sempre os jardins e as árvores, e nisso fazem poesia sem nem o saber…

Outros animais habituados a diferentes pontos de vista são os gatos. Quando se diz que o gato subiu no telhado, significa que algum mal está por vir (ou seja, o bicho está para se esbagaçar no chão). Mas o que eu vejo daqui, dia e noite, é que os gatos circulam por esses telhados com tal segurança que a expressão não se sustenta. Esses felinos caminham com tanta naturalidade que parecem nos dizer: “vocês pagam IPTU e não usufruem os metros quadrados do telhado!”. Sim, senhor bichano, mas eu moro em apartamento. “Pior, você paga para ficar preso”, diz ele.

Não nego que esteja preso. Respeito a pandemia como uma mensagem do planeta ao homem. A Terra, como eu, não tem uma conta no Instagram para emitir declarações oficiais nem postar fotos das coisas que nós fazemos e que são verdadeiros gatos no telhado, prestes a despencar. Este planeta diz suas coisas à sua maneira, e não vamos aqui subestimar uma comunicação de bilhões de anos. Mas nós também somos a Terra. Antes da doença, já sentíamos o mal-estar…

Há quem diga que é inútil a corrida pela construção do prédio mais alto do mundo. Da minha parte, acho que não há corrida mais importante. Construam-se prédios enormes em todos os continentes, agulhas que arranhem os céus e ativem pontos de acupuntura na Terra dolorida. Levem os tristes olhos humanos às alturas. Pois não é visão o que nos falta, e sim perspectiva.

A minha toca

Login e senha, acesso permitido ao Facebook. Sala dos desgraçados, eis-me aqui à procura de uma mensagem na garrafa, um grito de independência para eu reverberar! Luiz Augusto, ex-colega de faculdade. Faz do Facebook uma piada, muitas vezes uma piada de si mesmo. Suas postagens são sempre de um humor escrachado, mas sem ser esculachado. Um sinal de vida inteligente e sensível. Valeu a pena, Zuckerberg. Sem tua contribuição, eu estaria aqui privado.

Atenção, programadores do Google, Gates, a turma toda! Eu vou sair deste apartamento, mas sem destino certo nem útil. OK, vou passar na farmácia, mas depois não tomo reto o caminho de volta. Vou além. Seus algoritmos não estão preparados para isto – o Mateus vai sair para caminhar! Meçam minha velocidade, deem-me banners de tênis em promoção (me enganem que eu gosto), e se possível de uma máscara com filtro antivírus. Compro depois, se achar que convém. Nesta caminhada é que não hei de parar no mercado. Vou conquistar uma esquina!

Eu tomo várias, finco nelas a minha bandeira encardida, recortada como a do Nepal, vermelha, branca, preta e pálida como a do meu São Paulo. A última das esquinas que conquisto é aquela que mais vejo durante a quarentena. Ando com cuidado em direção ao meio da rua, como se a qualquer instante a nave Challenger pudesse chegar, trazendo água da lua, e me atropelar. Eu piso um conto de fadas, quase não acredito que estou ali. O sol se escondeu atrás das nuvens. Enquanto não se faz o 5G, ó Deus, ninguém mais pode ter essa sensação a não ser eu mesmo…

Depois de sete meses de rigorosa quarentena, o GPS do celular testemunha a minha posição avançada. Em pleno campo minado, ouço a Valsa das Flores, do Quebra-Nozes de Tchaikovsky. As andorinhas de Bauru fazem seu balé do fim da tarde. Triunfante em minha insignificância de bípede com músculos atrofiados, eu viro para trás e noto o meu prédio. Que baita construção, como é gloriosa a sua engenharia! Mesmo sua pintura com as cores de um hot dog é uma arte!

Rapidamente eu identifico o meu apartamento. Ali está o meu pinheiro, meu pinheirinho! Que orgulho que dá, eu que cuido dele. Vejo o casal de corujas balançando sobre ele, o único casal que sobrou naquela casa. O prédio é grande, mas minha casa é uma caixinha de nada no meio dele. Como pode alguém sobreviver tanto tempo ali, suspenso nesse abismo que é o mundo?

Pois foi naquele lugar que eu guardei meus tesouros. Junto daquela sujeira e daquela bagunça, acumulei amor em cada canto, fiz uma oração muda para cada objeto. Aqueles quadros ainda por se pendurarem me viram cair e levantar em silêncio. De nada adiantou eu apagar as luzes, pois toda a casa via. E quando eu pegava o violão, toda a casa se fazia banda, a banda que eu nunca tive. Todas as fotos dos Beatles cantaram comigo, todos os bichos nos móveis cantaram, Francisco de Assis cantou. Para a minha querida toca, eu retorno voando feito uma andorinha.