Coisas boas com a letra P

Há sempre uma fumaça preta na borda da cidade. Queima-se alguma coisa naquele ponto remoto da periferia. Nunca me parece um bom sinal, mas ao menos é um sinal – um sinal de fumaça, uma presença humana onde não posso ouvi-la.

Ruídos, eu só ouço das motos. Parece que os indivíduos venceram o país. Ouço que as pessoas passam fome na periferia, e que não há país para alimentá-las. Mas se há mercados…

O começo da noite leva os carros ao mercado. O agito do estacionamento sugere uma confraternização que, eu sei, não há. Mas tenho a impressão – na verdade, uma fé ingênua e teimosa – de que todas aquelas pessoas vão preparar jantares festivos em suas casas. Nessas cenas, dois ou três adultos manejam as panelas, e o aroma atrai os mais jovens sob qualquer pretexto. O assunto acaba, mas o silêncio traz o deleite dos pensamentos… Os jovens sempre têm algum amor saboroso em que pensar. Eu sempre tinha.

Fico particularmente satisfeito com a cruz de luz azul que vigia, sem descanso, um outro canto da cidade. Sinto que todo o entorno daquela igreja está protegido. Eu gostaria de ter mais igrejas na minha paisagem (como em Salvador, onde se respira o incenso de cinco séculos). De noite, não vejo a torre do Santuário de Nossa Senhora. Mas a vela que acendi lá ainda está acesa…

O shopping, com a luz discreta da sua fachada, é de uma humildade que comove a gente. Vou até lá e tomo um café na penumbra de um empório que eu nem sei se ainda existe. Neste momento, estou sentado sozinho, mas cercado de mesas repletas, também elas festivas. Não há máscaras nem pandemias.

O prédio vizinho é uma senhora desagradável, que fecha suas cortinas ao me ver na janela. Por favor, minha senhora, deixe de ser tão ciosa e traga à varanda alguma moça solteira, dessas que me entenderiam, e que provocariam um pensamento saboroso no preparo do jantar. Se preferir, pode marcar um encontro nosso na penumbra do empório.

Presença humana, país, pensamento, penumbra, poesia – eu tenho a fé de que tudo isso ainda existe.

As compras

Longe do sentimento da cidade
Sigo existindo entre paredes nuas…
De fora, apenas o ruído invade;
Cá dentro, escapa-me o sabor das ruas.

Levanto-me, deito-me sem descanso
E logo me levanto novamente.
Falta espaço, e nem o tempo eu alcanço
– Nem de escravo lhe sirvo, embora tente.

Então vejo na rua uma mulher:
A máscara esconde um rosto qualquer
Mas logo reconheço que sou dela…

Entra na loja, sai e vai à outra
E tudo o que a moça procura, encontra
– Faltou me procurar numa janela…

Ondas

Deixa que um dedo percorra essa tez
A despertar cada ponto tocado;
Assim, de olhos fechados, tudo vês
Tal como eu te vejo inteira ao meu lado.

Desperto teus cabelos, teu pescoço…
E o mundo se abre num largo oceano:
Vejo costas serenas onde eu posso,
Roçando um dedo, navegar sem plano.

Uma corrente, ao romper as fronteiras,
Conduz o barco a formosas geleiras
Que derretemos em poucos instantes.

Por temperadas pernas, chega o dedo
Ao fim do mundo, do mar e do medo
– Dos teus pés, partem outros navegantes…

Café

A saudade é uma cadeira vazia
Ao lado da minha, de onde percebo
A ausência de alguma coisa que havia
Como os goles vão levando o que bebo.

Mas ainda se preserva um sabor…
E o que foi, de algum modo, permanece.
Uma voz dentro de mim vem repor
O que a cadeira cala numa prece.

Como dizer que me iludo, se eu sinto?
Num sentimento feito um labirinto,
Eu quero a saída, mas não sair…

A cadeira me oferece um passado
Que se faz doce presença ao meu lado
Sem ter xícara para se servir.

Degelo

Como um pedreiro medieval, faço
Uma torre de engenhosa beleza:
Minha imagem se constrói traço a traço
Mas flui como espontânea natureza.

A perfeita torre de pedra se ergue
Num mosaico pouco visto nas Artes:
Como massa compacta de iceberg,
Não se distinguem camadas nem partes.

Mas eis que vem do céu, sem dar sinal,
Um pequeno, imprevisível pardal
E pousa na pedra superior…

Sinos badalam num soprar de brisa!
Meu campanário, qual torre de Pisa,
Inclina-se e desnuda o construtor.

Tocando em frente

“Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs”. Quando ouço ou penso nesses inspirados versos da música brasileira, eu sempre imagino o Almir Sater num rodízio de comida italiana, que é uma boa ocasião para se conhecer o sabor das massas. Com a viola ao lado, ele pede ao garçom: “Deixa eu experimentar esse canelone aí”.

Eu não sou propriamente uma pessoa apurada em termos de poesia. Digo poesia, e não poema, pois não estou me referindo à arte dos poetas (que tampouco julgo conhecer, embora seja leitor da modalidade). Eu falo em poesia no sentido mais amplo, daquele raio capaz de atravessar as coisas da vida e atribuir-lhes uma beleza singular – inclusive nos poemas.

A verdade é que o mundo embrutece a gente. Isto aqui era para ser um lugar de gozo, ainda mais agora que a humanidade já superou a fase das vacas magras. Sem precisar derrubar mais nenhuma árvore, a gente já daria conta de alimentar cada pessoa e cada bicho. Não nos faltam recursos, e não há vida que dure a tempo de conhecer todos os bons lugares da Terra.

Não bastassem esses pré-requisitos para uma digna existência, temos a poesia para encantar as coisas. Com olhos impregnados dela, vemos mais do que uma praia (ah, uma praia): vemos sua beleza e, nela, sua alma. Como a paisagem, vamos além do que somos, transcendemos.

Mas não. Os séculos continuam engolindo as transcendências. Ultimamente, têm engolido a própria Terra, num avassalador assalto a essa rede de redes que é a internet, ou melhor, a natureza, a serviço de lucros de curtíssimo prazo, que por isso mesmo são insaciáveis. Esse assédio sanguinário às bases da vida inclui a caça aos povos originários (como os indígenas), que sabem manter com a Terra um pacto de cooperação mútua, capaz de render vida em abundância a todos. A civilização desencanta a Terra, que um dia consideramos Mãe.

Limitados à luta pela sobrevivência, os desprovidos se apegam à maior das poesias, o grande Mistério por trás e por dentro de tudo – Deus. A vida, porém, é uma pedra bruta que a maioria não vai lapidar. Mas não são só os pobres os que vivem distantes da poesia das horas, das receitas sem pressa, dos pores-do-sol. Nós, os vacinados e os remediados, também vamos embrutecidos. As crianças que somos apanham em todas as frentes. Não há um dia em que não nos cobram pragmatismo, quando o nosso desejo é pelo infinito.

Também a pandemia nos põe contra a parede, literalmente. Eu vou te contar, não sei como estou suportando o cárcere. Aí eu penso em quem precisa sair para trabalhar, ou em quem não tem trabalho, ou nos cachorros confinados no cimento de um quintal vizinho, ou na gravidade dessa doença, ou no esgotamento das enfermeiras, e procuro sossegar o facho.

Mas penso que só mesmo a poesia pode trazer o verdadeiro remanso. Em quarentena ou não, eu só consigo ir tocando em frente graças a alguma resiliência, algumas pessoas e ao menos alguma poesia. Aliás, é incrível que a humanidade tenha sido capaz de criar coisas como os Beatles e o Mario Quintana, provas de que não somos um projeto falido.

Dito isso, não vejo a hora de poder sair de casa e, como o Almir Sater, experimentar o verdadeiro sabor das massas, já que eu não conheço as manhas para fazer lasanhas…

Desencontro

Júlio já havia passado pela catraca, descido a escada rolante e caminhado ao menos quarenta passos pela plataforma. Por que ainda trazia entre os dedos o velho cartão do Bilhete Único? Foi o que se perguntou ao despertar da própria mente, quando o ruído dos trilhos do metrô anunciava o trem que chegava. Mas ele sabia o motivo de cada distração sua naquela noite. Exausto de excitação, resolveu repousar num banco de madeira sob uma propaganda de telefonia móvel, à espera de outra composição como a que já se esticava diante dos seus olhos.

Taís se sentou no mesmo banco da estação. Sobre ela, porém, a publicidade não tratava de um plano de internet, mas de saúde. Alheia àquelas recomendações para o futuro, ela também assistiu à passagem do primeiro trem. Deixou ir o segundo, e o terceiro. No fechar das portas do quarto trem, Taís já retomava algum controle sobre os olhos, que andavam perdidos minutos antes. Ao lado, Júlio olhava o relógio sem perceber as horas. O quinto carro era talvez o sexto…

Sentados num ponto discreto da plataforma, Taís e Júlio observavam aquelas pessoas que entravam e saíam dos vagões. Como os trens que passavam, os passageiros eram todos iguais.

Uma carga de eletricidade estática unia o Bilhete Único a um recibo de compra a crédito. Mecanicamente, Júlio conferiu o valor e dobrou o papel. Até o teria guardado num dos bolsos da carteira, não tivesse se rendido novamente àquele pensamento. A incrível propulsão desse fenômeno o fez atravessar as camadas de terra e emergir numa esquina da Rua Haddock Lobo, cenário da história que se repetia na lembrança. Enquanto a cena se projetava – agora com novos aperfeiçoamentos –, Júlio involuntariamente meteu o recibo amarelo num mínimo vão entre o metal e a madeira embaixo do banco. Ao retornar dezenas de metros sob a rua, o rapaz não compreendeu o desaparecimento do papel, que examinara havia poucos segundos. Procurou no chão, varrendo-o com os sapatos novos; conferiu os bolsos da camisa branca e da calça. Nada. Ali estava ele, a olhar um cartão frio e duas mãos de comprovados poderes mágicos. Um papel havia sumido como cada um dos problemas que ele tinha até aquela noite gloriosa.

No seu canto do banco, Taís era desilusão. Pelas janelas dos trens que chegavam, ela via a si mesma trabalhando num escritório cinicamente iluminado. Em cada carro que partia, via as lâmpadas se apagarem e a sala desaparecer. Ela havia perdido o emprego. Lembrou-se de que ainda tinha plano de saúde por mais três meses, o que não trouxe conforto ao seu assento. Inconscientemente, percorreu as mãos pelo corpo jovem, como o tímido começo de um abraço que ela pedia a si mesma. No despertar daquele instante embaraçoso, uma das mãos escorregou para o banco gelado. Ao tatear a parte inferior, tocou um pedaço de papel enterrado num vão entre a madeira e o metal. O papel dobrado não era amarelo nem tinha preço: estava em branco.

Taís gostaria de ler qualquer coisa naquele papel improvável. Mas não havia palavras, nada. Ela observou cada dobra, com a atenção de quem vê as próprias rugas no espelho. Sem dúvida, tratava-se de um comprovante de pagamento, cuja natureza, ao seu lado, Júlio teria lhe explicado facilmente. Nas mãos de Taís, porém, não havia explicações. A jovem tinha entre os dedos o mistério. Imaginou o que havia sido comprado naquela antiga transação. Viu, então, um café e um livro, presentes que decidiu ganhar naquela noite. Lá estava ela, com um papel e duas mãos mágicas. O décimo trem já lhe soava uma boa companhia para enfrentar o túnel. Partiu.

Júlio viu o décimo carro desaparecer, como Taís viu a luz da estação se apagar de dentro da composição. O rapaz estava feliz com o negócio que havia fechado numa mesa da Haddock Lobo. Levantou-se e partiu no décimo primeiro trem, num silêncio saciado. Restou-nos, pois, a estação. Nela, um banco de madeira. Nele, a ausência de um papel que havia repousado ali por onze anos, não se sabe como – o tempo define os termos e as condições do serviço de guarda.

Dois dias depois da partida de Taís, Júlio desembarcou pela primeira vez na estação desde o desaparecimento do recibo, onze anos antes. Súbito, recordou a cena e percebeu o tal banco, que contava seus trens em silêncio. Num rompante de credulidade, tão estranho ao seu atual estilo, sentou-se no banco ante a mística perspectiva de recuperar o papel, comprovante de um pagamento que ele agora ignorava. Diante do silêncio de todas as vozes sobrenaturais daquelas cavernas, percorreu a mão sob o banco, até concluir que nada havia além de chicletes mascados em dias mais doces. Riu da própria ilusão, mas perdeu de vez a fé no milagre das mãos e da vida.

Júlio subiu as escadas rolantes pensando que seria impossível um pedaço de papel se preservar por tanto tempo; teria se dissolvido na química do perpétuo respirar de quem tinha a estação como passagem, nunca como parada. Ele não sabia que, dois dias antes, uma moça havia retomado o milagre que ele começara naquela noite. Exausto de angústia, o homem passou pela catraca e foi tentar recuperar um negócio em crise, com apenas duas mãos e unhas por cortar…

Mal traçadas

Eu adoro mapa – a representação visual de um espaço –, mas tenho pouca afinidade com a geometria – a medição desse espaço. Gostaria de ter aprendido geometria com mapas das ruas de São Paulo, que sempre me fascinaram. Talvez assim eu teria curtido mais a matéria, e o mundo teria hoje mais um engenheiro para construí-lo…

Em termos geométricos, São Paulo é berço e cemitério de polígonos. Eu não sou engenheiro nem nada, mas, nossa Senhora, esse planejamento urbano da Capital eu também saberia fazer! Mais de uma vez já fui vítima da barbeiragem de quem traçou certas ruas paulistanas, como se as minhas barbeiragens já não fossem suficientes.

Não sei os senhores, mas eu cheguei a dirigir em São Paulo antes da era do GPS (o que também não faz tanto tempo assim, nem dez anos atrás). Naquela época, passava-se mais vergonha como motorista. Uma vez em que fiz clamoroso papelão foi quando, partindo da casa de um amigo no Cambuci, errei a saída e desemboquei na Radial Leste, em horário de pico.

Depois de certo desespero, finalmente achei o retorno. Assim, bastava continuar na avenida: eu logo teria reconhecido o Minhocão (ui!) e praticamente estaria em casa. Mas, por algum motivo que ainda ignoro, peguei uma alça e fui parar na Aclimação.

Eta bairro de mal traçadas linhas! Eu ia pelo senso de direção, mas as ruas faziam curvas suaves que arruinavam qualquer navegação. Fiquei perdido umas duas horas, depois de ter dito à passageira coisas como “o segredo para se dirigir em São Paulo é conhecer os seus grandes corredores”. O professor só não sabia chegar a eles…

Tempos depois, eu ia pela Marginal Tietê querendo acessar a Avenida Cruzeiro do Sul, mas uma confusão de carros, saídas e placas atrapalhou este já confuso condutor, que passou do ponto. Falei para a minha mãe: “Não se preocupe, é só entrar na rua da Portuguesa, virar à direita e cair de boca na Cruzeiro”. A rua da Portuguesa só virava à esquerda, irmãos.

Mas foi assim que minha mãe e eu finalmente descobrimos o bairro do Pari, que ela estava mesmo querendo visitar para comprar artigos domésticos. Isso, porém, seria em outra ocasião. Naquele dia, nós apenas ficamos perdidos mesmo. Do Pari, nós caímos no Brás, onde eu achei até o samba do Arnesto, menos a saída.

Voltamos ao Pari algumas vezes depois disso, sendo a última há pouco mais de um ano, para procurar enfeites e presentes de Natal (lembrancinhas, para ser sincero). Eu queria comprar um pisca-pisca em formato de estrela para pendurar na minha varanda. Penso que qualquer decoração natalina é um sinal de resistência, como quem diz: “Nesta casa, nós apoiamos a luz”.

A questão deste apartamento é que não há meio de pôr a estrela de frente para a cidade (a não ser que eu a prenda no parapeito e fique sem poder admirar as suas luzes vermelhas). Pendurado lateralmente o enfeite, apenas eu, os moradores do prédio vizinho e os clientes do mercado da esquina podemos vê-lo brilhar – o que não é pouco.

Imagino um menino triste no estacionamento do mercado que, ao notar a estrela, dissesse: “Olha que bonito!”. Talvez o meu pequeno polígono, no décimo andar de um prédio vulgar, siga brilhando nos olhos dele como um exemplo de coragem, de modo que ele nunca fique tão perdido, mesmo se for dirigir às escuras na noite de São Paulo. Mesmo que esse menino seja eu.

Em tempo: não se constrói o mundo só com concreto, mas também com luz, sonho e poesia.

Dicas para a vida sexual (e, vá lá, financeira) no novo normal

Lionel_Mé, de Bauru, escreve: “Caro Mateus, tenho 35 anos, sou comerciante e, graças a Deus, solteiro. Há mais de oito meses, mudei drasticamente o visual, tendo extraído a minha atávica barba, que ia mais grisalha do que o recomendado. A partir daí, coincidência ou não, as vendas da loja, como os pelos da cara, caíram vertiginosamente, e a minha vida sexual sofreu enorme queda. No início, até a prefeitura apareceu para me proibir de trabalhar por uns dias. No fim, a contabilidade nunca mais foi a mesma na loja nem nas baladas onde atuo. Gostaria de saber se devo retomar a velha barba, e peço dicas para reavivar minha vida sexual e, se der, financeira”.

Ó Lionel, convenhamos, as coincidências desta vida tornam arriscado um diagnóstico definitivo quanto aos possíveis efeitos de um barbear completo nos seus, digamos, investimentos. Claro que você não pode descartar a possibilidade de o novo visual não ter agradado, tendo em vista que o aspecto de lenhador – barba fina e músculos grossos – é uma alternativa cada vez mais estabelecida no gosto popular. Nesse quesito, a moda da máscara pode minimizar as eventuais perdas, como um fator de distração e mesmo de disfarce para as bochechas lisas, sem contar os prováveis benefícios para a sua saúde, que a mídia tem ampla e incansavelmente divulgado. Portanto, use e abuse da máscara como uma forma de preservar a vida e o chamado mistério, ingredientes recomendáveis a todo romance. Cultivar nova barba é opção, mas não obrigação.

Por outro lado, essa impressão de que as pessoas estão menos nas ruas não é apenas sua. Há muitos relatos de que estamos vivendo um período de distanciamento e até isolamento social. Apesar dos notórios problemas que isso acarreta, afetando bolsos e boates, a crise pode trazer benefícios inesperados, como uma maior profissionalização da gestão de negócios e relações. Especificamente no aspecto amoroso, eu diria para você não desprezar a possibilidade de criar um vínculo mais duradouro, o que pode render não só uma parceira sexual estável, mas uma companheira para a vida. Administrar as diferenças e reconhecer os seus próprios limites – eis alguns segredos para manter em pé sua loja e seu futuro enlace, num cenário que deve piorar.

Por fim, nem preciso falar no tocante à masturbação, recurso a que certamente o senhor tem recorrido nestes tempos extremos. Eu quero me referir a outro ato que a pessoa pode praticar consigo mesma, que é o autoconhecimento. A inusitada solidão é uma boa oportunidade para que a gente se ouça com maior profundidade, de forma a melhor desvendar o que somos e o que queremos. Manter ou não uma barba pode, sim, ser uma questão de preferência sua, mais do que do público consumidor. E a máscara que está na moda é a de tecido, e não aquela que esconde a nossa verdadeira personalidade. Não vou negar, meu caro, que isso pode afastar as mulheres no início. Mas foque na porta que vai se abrir para que venha a mulher certa – uma que o ame a ponto de investir no combalido caixa da sua empresa. Um abraço ao Mé, e até.

Cartas marcadas

Há alguns anos, eu visitei o Museu Catavento, em São Paulo, dedicado às ciências naturais. Depois de passar por uma grande sala com exposição de bichos (dos quais, salvo engano, só estavam vivos alguns peixes e outros animais úmidos), acabei num pátio com um viveiro de borboletas. Era verão, e havia uma placa na gaiola dizendo que o período de chuvas causava a morte de muitas borboletas, o que – obviamente – explicava a dificuldade em percebê-las ali.

Pensei que aquilo era um contrassenso, porque a gente sabe que a chuva é uma bênção dos céus em benefício da vida na Terra. Contudo, pensei melhor e concluí que, pois é, é fácil falar quando não se é borboleta. Vá você enfrentar um temporal com aquele corpinho epidérmico. Com este meu baita corpo (que também não é nenhuma escultura grega), eu já fujo de chuva.

Diz que os egípcios inventaram o papiro há aproximadamente três mil anos. Arrisco dizer que a inspiração para essa descoberta foi a borboleta, o mais sublime dos papéis. Em suas asas, Deus imprimiu um reflexo do Seu próprio esplendor, que não caberia em criatura menos delicada. A Amazônia tem bandos de borboletas – as panapanás – que enchem a floresta de cor e alegria.

Mas ver Deus numa borboleta é fácil. E não foi outro o Criador da aranha, com a qual eu tenho frias relações diplomáticas. Carrancuda sentinela das sombras, uma aranha não traz nenhuma alegria a uma floresta, muito menos a uma casa. Mas é comovente a sua presença, convicta do seu direito de existir, apesar do nosso desprezo e das investidas de sapos, gatos e passarinhos.

Quando eu me mudei para este apartamento, logo percebi uma aranha que habitava o vão do batente da porta do banheiro. Sendo ela uma aranha miúda mas de aspecto pouco amigável, pensei que seria prudente enviá-la para a eternidade com uma das minhas havaianas. Porém, tive pena daquele bicho solitário, que havia chegado antes de mim ao imóvel. Dei-lhe uns dias de lambuja para avaliar o seu comportamento. Resultado: a aranha recebeu o nome de Juliana e foi tratada como moradora. Cansou de me ver pelado naquele banheiro, o que não diminuiu sua notória timidez. Aqui permaneceu por um ano, até que parei de surpreendê-la na parede. Retirou-se da vida como a viveu – discretamente. Só corria para se esconder. Nada mais frágil.

Outro dia, chovia nestas janelas, e lá fui eu apoiar a testa no vidro para olhar o espetáculo das águas sobre a cidade. Mas o primeiro plano me surpreendeu com cena dramática: uma aranha encurralada entre a janela e uma goteira, que espirrava para todos os lados e escorria para o precipício. Eram apenas respingos, mas a aranha enrijecia o seu corpo a cada espirrada. Fiquei envolvido em sua luta silenciosa contra a morte anônima a mais de 30 metros de altura. O que me causava mais impressão era a sua evidente fragilidade, que sua aparência queria disfarçar.

No momento em que escrevo, um homem surge no topo de um prédio a duas quadras daqui. Contra o imenso céu azul desta tarde, ele não é mais do que um inseto (com a ressalva de ter nas mãos um celular, no qual registra fotos da vista). Isolado do mundo dos homens, o sujeito não se faz de gavião: o seu passo hesitante no céu escancara o medo que ele tenta esconder na calçada. Seja com figurino de borboleta ou de aranha, os homens somos todos vulneráveis.